Você já sentiu um pequeno caroço logo abaixo da orelha ou na linha da mandíbula enquanto lavava o rosto ou fazia a barba? Muitas vezes, esse volume aparece de forma discreta, sem dor ou vermelhidão, e a primeira reação é ignorar, atribuindo o inchaço a um “gânglio inflamado” por um resfriado passageiro ou até mesmo ao estresse. No entanto, o silêncio das glândulas salivares pode ser enganoso. As glândulas salivares — divididas entre as maiores, como a parótida (perto da orelha) e a submandibular (sob o queixo), e centenas de glândulas menores espalhadas pela boca — são verdadeiras usinas de produção de saliva, essenciais para a digestão e proteção dentária. Quando algo interrompe esse fluxo ou quando as células começam a se multiplicar de forma desordenada, o corpo envia sinais que, embora sutis, exigem um olhar especializado.
O dilema do “caroço que não dói” Um dos maiores desafios na cirurgia de cabeça e pescoço é que a ausência de dor não é sinônimo de benignidade. Pelo contrário. Frequentemente, cálculos salivares (sialolitíase), que são como pequenas pedras nos canais da glândula, causam dor aguda e inchaço rápido, especialmente logo após as refeições, quando a glândula tenta produzir saliva e encontra o caminho obstruído. É um incômodo barulhento que leva o paciente ao médico rapidamente. O cenário muda quando falamos de tumores. O Adenoma Pleomórfico, o tumor benigno mais comum da glândula parótida, costuma crescer lentamente ao longo de meses ou anos. Ele é indolor, firme e móvel. O perigo aqui é a complacência: por não doer, o paciente adia a consulta, permitindo que a lesão cresça e se aproxime de estruturas nobres, como o nervo facial.
O fator de risco e a precisão técnica Imagine um paciente de 50 anos que percebe um endurecimento na região da bochecha. Ele não fuma, não bebe excessivamente e não tem histórico familiar. Na biópsia por agulha fina (PAAF) — um procedimento rápido realizado no consultório ou sob guia de ultrassom — descobrimos que não se trata de uma inflamação, mas de uma neoplasia. Nesse momento, a anatomia se torna a nossa maior aliada e, ao mesmo tempo, o nosso maior cuidado. Na cirurgia da parótida, por exemplo, o nervo facial — responsável por todos os movimentos do rosto, como sorrir e fechar os olhos — atravessa o tecido glandular como as raízes de uma árvore em um solo macio. O papel do cirurgião de cabeça e pescoço não é apenas remover o tumor, mas realizar uma microdissecção preservando cada ramo desse nervo.
Em casos complexos, utilizamos a monitorização nervosa intraoperatória, uma tecnologia que nos dá um mapa em tempo real da função motora do paciente enquanto operamos. Quando o sinal de alerta acende Existem sinais que mudam o patamar da urgência. Se o inchaço vier acompanhado de: Paralisia ou fraqueza em um lado do rosto; Crescimento muito rápido em poucas semanas; Pele endurecida ou com feridas sobre o local; Dificuldade de abrir a boca ou engolir. Nesses casos, a suspeita de malignidade aumenta. O carcinoma epidermoide ou o carcinoma adenóide cístico são exemplos de tumores que exigem uma abordagem agressiva e multidisciplinar, muitas vezes combinando a cirurgia com radioterapia para garantir o controle da doença.
Dr Stéfano Fiúza – Cirurgião de Cabeça e Pescoço
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